sexta-feira, 20 de maio de 2011

Faz de conta



De novo. Como num faz de conta. Finge que eu continuo vindo aqui. Faz de conta que eu tenho passado para o papel todas as angústias que me afetam, faz de conta que eu dei conta de fazer isso todas as vezes em que foi preciso. Faz de conta. Faz de conta! Ora, eu não suporto mais fazer de conta! Para que? Por quê? Eu não sei ser assim, eu não consigo ser assim. Já tentei, juro que já tentei. Mas, hoje, não deu. Você, que lê o que eu escrevo, sabe. E você, que veio pela primeira vez, meu bem, vai saber: eu não sei ser assim. Repito: EU NÃO SEI SER ASSIM (leia-se: SOCORRO!!!).

Tentei algumas vezes escrever aquilo que eu queria ler, aquilo que fizesse meu coração acalmar. Não foi possível, não consegui mentir para mim mesma. Eu até tentei, mas as palavras ficaram soltas, sem nexo algum. É estranho... Eu consigo mentir pra você, minha família, meus amigos, mas, para mim mesma, jamais! Isso me frustrou, pois, para me aliviar, eu quis inventar uma realidade que não existe dentro de mim. Mas, quer saber? Isso é bom! Prova que eu sou fiel a mim mesma, ou, pelo menos, tento.

Essas tentativas de esquecimento só me fizeram enxergar o quanto não posso esquecer, assim, por esquecer. Mas como irei esquecer aquilo que eu não sei se era pra existir? Diga-me você que está lendo essas palavras quase que sufocantes: como? O convívio me faz bem, mas, ao tempo, tira-se o chão! Como pode? Já pedi a Ele que me guiasse, que me dissesse qual é a direção, o que fazer... Até recebi um sinal de fumaça, sabe, mas fiquei na dúvida, me perdi pelo caminho que estava tão obscuro! Apesar disso, nesse meio tempo, pude aproveitar a distração, me diverti, todavia, não esqueci...

Olho para trás e não tenho mágoas, nem remorso do que se passou. Isso é bom? Não sei. Não sei mesmo. Fico a me perguntar: por que essa situação, sendo que não deu certo? A vida podia ser como num tamagoshi, né? Quando a gente estivesse quase se fodendo, haveria um botão atrás escrito “reset”. E pronto! Tudo de novo, como se nada tivesse acontecido. Seria essa a melhor solução para as presepadas que a gente se mete?

Um faz de conta. Faça de conta você que está lendo essas palavras! Faça de conta que eu não escrevi nada disso que venho discorrendo, faça de conta que eu estou cem por cento bem. Faça de conta, também, que você não entendeu o que escrevi, porque eu sei que você entendeu, mas, apenas, faça de conta...

domingo, 27 de março de 2011

Rifa-se um coração


Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração como poucos. Um coração à moda antiga. Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário. Rifa-se um coração que, na realidade, está um pouco usado, meio calejado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões. Um pouco inconseqüente, que nunca desiste de acreditar nas pessoas. Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu: "não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...". Um idealista, um verdadeiro sonhador...

Rifa-se um coração que nunca aprende. Que não endurece e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras. Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, briga, se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes, revê suas posições, arrependido de palavras e gestos. Este coração tantas vezes incompreendido. Tantas vezes provocado. Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente e contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário. Um coração que, quando parar de bater, ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas: "O Senhor poder conferir, eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e se recusa a envelhecer".

Rifa-se um coração ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconseqüente. Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que, ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.

Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina. Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.


Por Clarice Lispector

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Uma palavra esperando tradução

Pensamentos borboleteando...

De repente, me deu uma vontade de escrever. Uma vontade de colocar pra fora isso, sabe. Mas colocar pra fora de verdade! Queria que as palavras expulsassem de dentro de mim isso que me incomoda, isso que me deixa inerte. Está comigo e não está. Sinto e deixo de sentir, quer dizer, tento deixar de sentir. Queria congelar tudo isso e passar a mão num martelo e destruir tudo, fácil, fácil...

Perdi o chão. Cadê a chave de casa? Trocaram a fechadura? Os pensamentos fervilham dentro de mim e a vontade de partir é enorme. Partir para onde? Nem eu mesma sei. Sinto vontade de partir de mim, de sair disso, dessa “coisa” que me sufoca. Não sei. Ando desconfiada. Sinto que estou sendo traída pelos meus próprios sentimentos... Eles me confundem. Por quê?

Essa música de fundo que você não está escutando, me faz lembrar muita coisa. Coisas que não aconteceram. Perdi o freio. Esqueci que a natureza do grão é crescer... Ele realmente cresceu e tomou proporções que eu não pude jamais imaginar. Eu não queria, de verdade, que chegasse ao que chegou.

Perdi o freio. De novo. Mesmo depois de tudo, eu continuei. Não queria saber nem quero. Eu queria mesmo era voltar no tempo, juro que teria aproveitado bem mais! Juro que não teria errado tanto. Mentira. Teria errado, sim. Enfiei os pés pelas mãos e enfiaria não sei mais onde se tudo não tivesse o fim que teve. Eu iria me arrepender, eu sei.

Não é disso que peno. É das palavras que foram ditas erroneamente. Palavras que não foram sinceras. Foram? Diga-me você! Eu não sei. Em metade, eu acreditei. Na outra, eu fingi que não ouvi para não estragar o momento. Olhos, pele e boca. Nada mais tem importância, não nesse momento de vazio. De sobra. Sobra do que tive pela metade. Sobra da sua ausência...

Talvez eu saiba o que é melhor pra mim. Talvez eu queira que isso seja melhor pra mim, pra minha felicidade. Mas que felicidade? Que felicidade é essa que não me permite ser feliz? Que incoerência! Que infelicidade... Não é nada. É teimosia. Nada é apenas uma palavra esperando tradução. Agora, teimosia... Sou eu em pessoa! Eu querendo ser Deus da minha vida.

Por Luana Chaves (21/02/11)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Chama de mim


Embreago-me com o amanhecer.
Meu eu consolida tua nascente!
Diante da força, do luzeiro...
Teu som, teus sentidos, a luz.

O amor? As lágrimas!
De teu peito sinto inflar
A viva chama, a chama
Do meu ser...

Queima em mim, queima em ti.
A chama brilha, cai sobre mim.
A ti, inebria...

Cobre, envolta do que é.
No sentimento, germinará...
A luz, a chama de mim!

Por Luana Chaves
(01/02/10)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O amor não vive de presente

Hoje eu escutei uma música que suscitou alguns questionamentos sobre os últimos acontecimentos da minha vida amorosa. Havia um trecho que dizia mais ou menos assim: “o amor não vive de presente; o amor vive do futuro, pois ele enxerga o que o outro ainda não é, enxerga o que ele ainda pode ser”.

Nesse momento, meu coração disparou! Quando escutei essa última parte (o amor enxerga o que o outro ainda pode ser), senti uma pontada no peito, como se alguém tivesse feito uma brincadeira de mau gosto e me abraçasse por trás, me deixando sem ar. Sentia que meu radar gritava desesperado em meu socorro...

Eu não consigo enxergar a minha paixão além do presente. Só se passam fantasias, desejos, vontades, que são castradas cruelmente por uma força que me liberta ao mesmo tempo que tira a minha alegria e me traz a angústia, me colocando à prova do que quero e do que deveria fazer. Você entende? Meu Id e Superego nunca estão em acordo! Afinal de contas, quem garante o que é certo ou errado? Eles podem apenas tomar rumos diferentes...

Uma vez eu escutei que, quando é para ser, não há espaços para dúvidas. Desde o primeiro olhar, um raio de dúvidas caiu sobre a minha cabeça! Senti curiosidade, atração, vontade... medo! Será que o amor age realmente de forma tão clara e objetiva em nossas vidas ou será que nossas ações é que travestem nossos sentimentos (ou não) em amor? Tenho minhas dúvidas sinceras...


Por Luana Chaves (31/01/11)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Esquece e vai dormir...


Psiu... Fale baixo! Escute. Eu demorei a voltar, então, ouça bem o que tenho hoje a falar. Não vim para demorar. Serei breve e não baterei a porta. Apenas ouça, preste bem atenção em cada palavra que irei, aqui, humildemente, “pronunciar”. É um relato, é uma inspiração real. Escute.

Não importa em que situação você está ou eu esteja. A minha situação pode ser diferente da sua, a gente pode estar vivendo emoções diferentes. Ou não. A gente pode estar simplesmente vivendo a mesma merda! Sim, porque tudo que passou não seria digno de ser descrito ou contado com tanto entusiasmo se não tivesse um crescimento pessoal por trás. E daí? Essa questão puramente amorosa, se pode assim dizer, não vem ao caso. Não agora.

Sabe, meu bem, eu não vou te contar o que aconteceu. Desculpa. Na verdade, essa idéia nem ao menos se passou pela minha cabeça. Sabe por quê? Porque não importa, não serve para você. Cada história é uma história. Esquece... Valeu a pena pra você? Para mim, eu ainda tento descobrir se sim. Enfim...

Meu bem! Escuta: se um homem te quer, nada irá mantê-lo longe. Entretanto, se ele não quer nada com você, querida, sinto lhe dizer, mas, nada irá fazê-lo ficar, nem mesmo para olhar na sua cara e ser sincero quanto às suas próprias mentiras esfarrapadas. Nada! De novo: ESQUECE!

Vou te contar um segredo de estado! Mas não vale contar para terceiros, ok? É que, por vezes, eu fantasiei mais de várias desculpas e situações. Coitadinha de mim! Acredite: sempre fui boa nisso! E só te falo uma coisa: pare de dar desculpas, de arranjar justificativas para um homem e seu comportamento. A sua intuição tem mais credibilidade que sua imaginação em qualquer situação, portanto, permita que ela te proteja das mágoas, mulher! Se ame!

Sabe uma coisa que nunca funcionou? Se modificar o tempo todo pelo outro. Quando esse outro não quer, você pode se transformar em Beyoncé que ele nem vai notar! Então, lindinha, pare de tentar se modificar por uma relação que não tem que acontecer. NÃO HÁ VAGAS PARA VOCÊ! Acredite nisso.

“Devagar e sempre”. É um ditado que todo mundo já ouviu. Por que devagar? Devagar é melhor? Não sei, querida! Mas uma coisa eu sei demais: nunca dedique sua vida a um par de calças antes que você encontre um que realmente te faça feliz! Entendeu ou seria preciso eu desenhar? Sai dessa vida, menina!

Se você não saiu dessa vida e, se essa relação terminar porque o homem que você não soube escolher não te tratou como você merece... Ah, foda-se! Mande esse filho da puta pro inferno! Você demorou pra fazer isso, mas fez. Mais uma vez: ESQUECE ESSA PORRA! E te diria mais, meu bem: vocês não podem “ser amigos”. Sabe por quê? Porque um amigo não destrata outro amigo. Fica a dica.

Oh, menina teimosa, não conserte nada que você jura que esteja errado em você ou no seu comportamento. Se você sente que ele está te enrolando, provavelmente, gata, é porque ele está mesmo! E eu nem preciso dizer que você sabe melhor que eu que ele é um babaca. PRECISO??

Pelo menos uma de nós, mulheres que se jogam num relacionamento sem medo, não continue uma relação porque você acha que ele vai melhorar. É fato, menina: você vai se chatear daqui um ano ou mais por continuar a relação porque as coisas ainda não melhoraram. E, acredite (mais uma vez): as coisas NUNCA mudam!

Só isso que eu te falo, meu bem. Se quiser me ouvir, bem. Se não quiser, amém! Todavia, se você não quiser levar em consideração os detalhes que te falei, será só mais uma mulher, assim como eu e tantas outras, a se foder numa relação que não era pra existir! Quer fazer diferente? Então, querida, acredite: a única pessoa que você pode controlar numa relação, felizmente/infelizmente, é você mesma. VALORIZE-SE!

Por Luana Chaves (25/01/11)


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Dançando a vida


Retirando a poeira das sapatilhas. Olhando por cima, aquela imensa alegria. Parece sonho, parece verdade. E é verdade! Parece que faz anos. Em volta, as roupas. Todas guardadas, o véu amassado... A espera do resultado do vestibular. A ansiedade, o nervosismo... É assim que me encontro. Mas respiro fundo, sinto minha respiração se acalmar, pego minhas sapatilhas e vou!

A vida é como a dança. Em nossas andanças e mudanças, qualquer lugar vira palco! E o show começa assim, de repente, sem mais nem menos, no instante agora. O improviso é contínuo. Há giros, saltos, técnica, emoção! Todavia, há, também, tropeços, desequilíbrios, esquecimentos e, algumas vezes, decepção...

Ontem foi como num truque de mágica! Entrei na sala, vi todas ali, sentadas. Ainda continuavam lá, no cantinho delas. A mestra também se encontrava lá, sentada em seu canto, fazendo a chamada. Fui até ela, que incluiu meu nome na lista. Dei uma volta na sala e vi que o espelho continua lá, do mesmo jeito que antes. As cortinas da mesma cor, os focos de luzes coloridos (nenhuma lâmpada queimada).

Os olhinhos redondos quase que lacrimejavam ao ouvir o toque marcante do sax, o som doce da flauta e a vibração forte do alaúde. O tilintar das moedas dos lenços, a contagem da mestra: 7, 8 e gira! Os holofotes alternando suas cores. Todas as bailarinas no mesmo ritmo, quer dizer, quase na mesma sintonia. E o sorriso estampado na face, contornava-se de uma orelha a outra, como se não coubesse dentro de mim...

O improviso! Como a mestra gosta de ver cada parte de nós se desvendar na dança. De olhos fechados, a melodia da música me puxava, quase que me arrastando para onde ela queria ir e meu corpo simplesmente obedecia à risca, como se fosse um pecado mortal desviar o caminho que aquela melodia me levava. E assim foi. Minhas mãos em movimentos aveludados entravam em sintonia com cada movimento sinuoso que saía de meu ventre...

E a vida se segue. A gente dança, vive, sonha, improvisa e a gente cresce, cooomo cresce! Mas eu continuo a dançar, pois a dança alegra a minha alma, eleva meu espírito e dá vida ao meu corpo. E a vida me dita o ritmo. Ele oscila. Ele vai, volta, brinca comigo, me engana... Ainda, assim, eu sigo o compasso! Eu o busco sempre. E, enquanto houver vida, há música e há dança!


Por vezes danço rápido, no ritmo de uma moderna, brincando de dançar, repleta de alegria dentro de mim. Outras, porém, danço na meia ponta, em alta concentração, postura impecável. Enquanto que em muitas outras, danço sozinha, entre quatro paredes, na companhia de mim mesma, sentindo a minha própria energia se exalar, como num desabafo, numa conversa com um diário, num memento só meu...

A dança é uma linguagem universal, um instinto natural. Todos somos bailarinos da vida. Como cada vida tem sua história, seu personagem principal, a minha dança é só minha. Meus passos são únicos, são meus. Ninguém dança como eu. Meus movimentos são só meus, assim como os seus. Eles têm o jeito e a forma de quem os cria ou mesmo reproduz e têm o sentimento de quem os comanda, em cada momento, seja sinuoso ou acelerado, distinto.

A paz que sinto agora é de quem retorna ao lar, depois de muitos anos fora. A minha dança é a minha cara metade, é o amor que me completa, é o “outro” que me faz bem. Por isso, eu vivo, quer dizer, eu danço, sempre com o coração repleto de amor!

Por Luana Chaves (10/11/10)


domingo, 24 de outubro de 2010

Sonho de uma flauta


Nem toda palavra é
Aquilo que o dicionário diz
Nem todo pedaço de pedra
Se parece com tijolo ou com pedra de giz

Avião parece passarinho
Que não sabe bater asa
Passarinho voando longe
Parece borboleta que fugiu de casa

Borboleta parece flor
Que o vento tirou pra dançar
Flor parece a gente
Pois somos semente do que ainda virá

A gente parece formiga
Lá de cima do avião
O céu parece um chão de areia
Parece descanso pra minha oração

A nuvem parece fumaça
Tem gente que acha que ela é algodão
Algodão as vezes é doce
Mas as vezes né doce não

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
Hum... E o mundo é perfeito
Hum... E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito

Eu não pareço meu pai
Nem pareço com meu irmão
Sei que toda mãe é santa
Sei que incerteza traz inspiração

Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso

Tem riso que parece choro
Tem choro que é por alegria
Tem dia que parece noite
E a tristeza parece poesia

Tem motivo pra viver de novo
Tem o novo que quer ter motivo
Tem a sede que morre no seio
Nota que fermata quando desafino

Descobrir o verdadeiro sentido das coisas
É querer saber demais
Querer saber demais

Sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
O dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar

Mas sonho parece verdade
Quando a gente esquece de acordar
E o dia parece metade
Quando a gente acorda e esquece de levantar
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito
E o mundo é perfeito...

O Teatro Mágico

sábado, 16 de outubro de 2010

Conversa de bar


Pensamentos borboleteando...

Eu só queria uma palavra, que ela me servisse de resposta. A brisa batia forte e eu ainda posso sentir o cheirinho da maresia (e a péssima textura do cabelo também!) e a areia entre meus pés e as sandálias. Ah, aquele dia foi tão bom! Apesar do conflito interno, foi muito bom. Ainda consigo ouvir o coral mudo que aqueles pombos faziam em volta dos prédios. Ninguém ouvia, ninguém reparava a dança que eles faziam, com tanta precisão (como seria possível?).

Acendendo um cigarro e tomando um café, ela sorriu para mim, ironicamente, como quem soubesse da minha necessidade, da minha imensa vontade de sair correndo mar adentro! Como saberia ela de tudo isso, sem aos menos termos trocado um “oi, tudo bem?”? Eu estava lá, sentada na guia da calçada, retirando o punhado de terra que havia ficado em meus pés. E ela ali, sentada numa mesa de bar (ou aquilo era um restaurante?).

Sem entender como e porque, aproximei-me daquela mulher. Uma mulher de cabelos negros e olhos maliciosos, que me lembrava alguém, que, naquele momento, não soube identificar quem seria. Entre o susto do impulso e a vontade em entender o porquê daquele sorriso sarcástico, prendi meu cabelo num coque e segui diretamente à mesa em que ela se encontrava. Sem nenhuma surpresa com minha atitude, a mulher desconhecida apontou uma cadeira à sua frente e fez um gesto, que se referia a mim. Sentei-me. Sem coragem de encarar aquele par de olhos maliciosos, meu olhar perdia-se entre os dedos inquietos daquele ser, que, estranhamente, me causava interesse e receio.

Naquele momento, tive pena de mim mesma, pois, pela primeira na vida, senti uma insegurança insustentável pairar sobre mim. Estava pálida! Mas não era só o sentimento de pena que me acompanhava, não. Havia algo mais. Na hora, eu não soube o que seria, mas, agora, eu tenho certeza! Havia também um misto de raiva e alegria. Sim, raiva pela minha fraqueza diante de uma desconhecida e alegria, por ter a certeza de que alguém, mesmo sendo um ser desconhecido, pudesse me surpreender, me deixar insegura, sem chão...

Passados alguns minutos de silêncio, a mulher acendeu outro cigarro e, após duas tragadas, mordeu os lábios e se apresentou:

- Meu nome é Mirella. Você não é daqui. Diga-me seu nome.

Sem pensar apenas por um segundo, um raio de coragem caiu sobre mim e prontifiquei-me a dizer, ainda trêmula:

- Lu... Luana!

A mulher riu novamente. Dessa vez, o sorriso veio com um ar de ternura. E, no fundo de seus olhos, eu vi uma paz. Era uma paz inexplicável! Havia um brilho diferente em seus olhos. E, de repente, meus lábios se abriram contra minha vontade e esboçaram um sorriso tímido, enquanto a mulher analisava meu rosto desconsertado. Enfim, tive coragem e perguntei:

- Como sabe que eu não sou daqui?

Mais um cigarro foi aceso e o café acabou por esfriar, pois a mulher já não dava mais atenção a ele (o café). Concentrou-se em seu cigarro, passou uma das mãos pelo cabelo negro e se pronunciou:

- Certas coisas não se dizem em palavras, você me deu a resposta com os olhos, antes mesmo que eu tivesse tempo para perguntar. E não é só isso que sei...

Sem entender, a curiosidade tomou conta de mim:

- O que mais pode saber, sem me conhecer? – Perguntei.

- O que te preocupa no momento, por exemplo. A sua sede de resposta. – Disse Mirella, com um ar de sabedoria.

O que seria aquela mulher, afinal? Uma vidente? Uma bruxa? Não saberia dizer. Uma ponta de desconfiança refletiu meu semblante e eu fiquei intacta, sem resposta. E a mulher continuou:

- Eu te conheço mais do que você imagina! Mais do que a mim mesma. Sabe por quê? – Perguntou a mulher, fitando-me os olhos.

Com o coração disparado e sem saber o que dizer ou fazer, não consegui mover um músculo sequer! E a desgraçada não parava:

- Sabe por que te conheço mais do que a mim mesma? Porque você sou eu! E eu sou apenas o seu eu lírico, o seu eu que fica na fronha do travesseiro! O seu eu que suporta as consequêcias de todas as suas atitudes. Eu sou o seu eu que se descobre a cada ação, por isso, não conheço-me melhor do que a ti, que é um eu fixo, que não muda, que é a essência...

Que confusão! O que Mirella estava dizendo? Quem era o eu de quem? Eu não seria uma pessoa só? Que história é essa de dois ‘eu’? Aquilo seria um delírio de identidade? Depois do chocante silêncio, Mirella se acalmou e disse, cabisbaixa e de olhos fechados:

- Está vendo essa mesa? Está vendo a você e a mim? Então, esses cigarros, não fui eu quem fumou. Esse café amargo, não fui eu quem deixou esfriar. Quem está falando com você, é você mesma. Isso que está acontecendo, é um encontro de você consigo mesma!

Num momento de desespero, desabei-me em choro! “Estou surtando, estou num momento psicótico”, foi o que pensei. Não seria possível! Sim, seria! Claro, Mirella! Era a personagem principal dos meus contos e crônicas. Sim, é verdade. Era ela mesma, a Mirella, a atriz das minhas histórias! E como isso foi acontecer? Como foi possível?

A mulher de olhos negros, como que adivinhando o que se passava pela minha cabeça naquele instante, acrescentou à sua fala:

- Esse encontro só foi possível porque você pediu uma resposta com fé, sem forma, sem nome, mas com muita fé. E agora você a tem em mãos, ou melhor, em mim, ou seja, em você mesma! As suas respostas estão sempre em você mesma, basta ter coragem para querer enxergar, de fato, suas verdades.

Como quem está caindo num sonho, eu levantei no susto! Assustada, virei uma xícara de café sobre a roupa e senti as pontas dos dedos queimarem. Apaguei a butuca de cigarro no cinzeiro de vidro e pedi a conta. De repente, senti uma estranha vontade de correr mar adentro, mas algo me impediu. Então, tirei minhas sandálias e sentei-me de frente ao mar, sentindo uma sensação boa. Fechei meus olhos e ouvi o mar sussurrando em meus ouvidos. E eu já não precisava de uma resposta. A calmaria do mar me trazia uma paz interna e, naquele dia, minhas interrogações foram embora, escorreram com as lágrimas que saltavam desesperadas dos meus olhos...

Por Luana Chaves

(16/10/10)


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Falando sobre o amor (de novo)


Pensamentos borboleteando...

O problema de sumir é que, quando a gente volta, tem que explicar o sumiço. E explicar o sumiço dá muito trabalho, você sabe. Às vezes, precisamos de um álibi, enfim. Como hoje estou um pouco cansada, podemos pular essa parte? Faz de conta que continuo sempre vindo aqui, que temos conversado sobre a vida, a faculdade, a dança, as amigas, o vizinho, os professores picaretas. Faz de conta que temos trocado confidências, que o tempo não passou, que o sorriso de hoje é o mesmo de 10 anos atrás, sem nenhuma marquinha na boca, sem nada estranho que lembre que o tempo passa. E como passa! O tempo passa muito, passa rápido, passa rindo da gente...

Meu pensamento fervilha. As idéias dão saltos mortais, estão evaporando! O coração está a mil. As emoções giram no sentido contrário (será?). E aí, eu me pergunto: Será que vou dar conta? Início de semestre, livro embaixo do braço, pessoas novas, dias diferentes e ele... Ele que ainda não saiu da minha cabeça! Parece que abriram uma porta, jogaram-no no espaço mais conflitante de mim, pregado com super bonder na parede que mais pulsa no meu coração e deixaram a chave no meu cérebro, que parece não ter acesso algum ao ele (o coração). Mas é assim mesmo. Nós somos uma família. UMA família! Nós, o início do semestre, as pessoas novas (e velhas, como não?), os conflitos, o cérebro e o coração e ele... Até ele! E todas as nossas outras coisas, nossos restos, nossos começos, meios e fins. Nós e nossas manias, nossos sucessos, nossos fracassos, nossos defeitos que ficam na fronha, nossas qualidades que fazem os olhos ter mais vida.

Eu sofri. Meu Deus! Como eu sofri com amores errados, ilusões, migalhas, coisas que achava que eram e nunca foram, paixonites enlouquecidas, vontades desesperadas. Todo mundo fala sobre o amor. As pessoas amam animais, objetos, pessoas, sorvetes, cervejas... O que era para ser “amor” tornou-se apenas uma palavra. O que era para ser um sentimento se tornou uma “coisa”. Uma simples coisa! Como podem fazer isso com o amor? Olha para mim e me explica. Mas olha mesmo, estou cansada de palavras soltas, ando sedenta por olho no olho. Estou desconfiada... O cabeleireiro novo me chama de amor. Entro na loja e a vendedora diz, sorrindo: "Oi, amada. Posso ajudar?". Não quero ser o amor de quem acabei de conhecer e entreguei meus lindos cabelos. Não quero que a vendedora me olhe e diga: "amada, essa calça ficou linda em você". Desculpe, é que tenho um profundo respeito pelas palavras.

Olhe, eu sou careta! Demorei tanto para sentir o amor. E acho que ainda não o senti... Intenso, verdadeiro! É, deve ser porque ainda não descobri o que ele, afinal de contas, é. Mas também, é lógico que a gente se engana! Alguns sentimentos se “travestem” e a gente crê que eles são amor. Depois, na hora do ‘vamos ver’, a gente descobre o que existia por baixo deles... Surpresa! Não era amor, era apenas uma confusão de sentimentos e vontades ou uma outra coisa qualquer. Não que eu esteja desmerecendo os outros sentimentos, longe de mim. Muitas emoções podem ser lindas (e são). Sentir é muito bom, mas o amor... Esse, que poucos sentem e muitos banalizam, deve ir muito mais além! Você entende? Às vezes, eu não entendo...

Eu posso dizer para você com todas as letras do alfabeto: eu-sofri-muito! E ainda sofro. Hoje acredito que talvez eu sofra porque estou constantemente me procurando. É uma busca incessante... Será que é por que dizem que a gente só encontra o amor depois de se achar? Eu estava em paz, numa vontade de ficar comigo, de ser minha amiga, de fazer dar certo essa relação difícil que existe entre nós e nós mesmos, de cuidar bem de mim, de tomar conta da minha vida do jeito certo. Então, ele apareceu. Não porque se mostrou a mim ou me seduziu, mas porque eu fui até ele. Sim, EU fui! Mostrei-me com todos os defeitos e qualidades, seduzindo aquele homem cobiçado. Não com olhares e gestos (até porque, ele nunca foi capaz de sustentar meu olhar!), mas com palavras. Não quaisquer palavras, mas as palavras que o fizeram sentir-se instigado a me decifrar.

Elas (as palavras), que me seduzem. Elas, que me envolvem. Elas, que me aproximam. Foram as palavras que me aproximaram dele. E foram elas que me conduziram até “o amor da minha vida”. Será? Por que as pessoas usam tanto esse clichê? Será mesmo que esse clichê tem verdade, tem vida? Entre uma palavra e outra, uma inquietação. Entre uma inquietação e outra, a curiosidade. Entre uma curiosidade e outra, um receio. Entre um “será” e outro, um relâmpago chamado coragem. Fui, fui com toda a vontade que tive. Ele veio (ou será que tive um delírio?). Para mim, NÓS fomos! Entre uma conversa e outra, um sentimento. Um sentimento sozinho, com sérios problemas de identidade. Um sentimento meu, só meu...

Ao que se vê, amar tem um quê de desespero, de descontrole, de coragem, de paciência, de cumplicidade, de segredo... Tem uma pitada de muitas coisas! Pra amar, tem que conhecer, se perceber. Tem que doer um pouco. Porque dói, é uma descoberta, é um se ver no outro, é um ver o outro exatamente como ele é (e, ainda assim, amar). Amar é perder o nojo, pois, amando, a gente percebe que o outro é uma pessoa (e as pessoas são sujas de vez em quando). Para amar, tem que ser inteiro. Para amar, a gente dispensa a matemática, por mais que um mais um seja dois. Para amar, o bom português basta. É só abrir o coração e boca e dizer: “eu te amo”. Será? Será que meu sentimento se resume a isso? Ou será que eu é que ainda não consegui sentir o amor?

Por Luana Chaves

(11/10/10)